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Um voto e a escolha da esperança pelo olhar de mulheres negras

Eis o pensamento que me cruzou a cabeça depois de terminar a conversa com as quatro mulheres que estampam a matéria: esta é uma escolha muito difícil. Infelizmente, a frase lembra um outro episódio da política e da imprensa brasileiras em relação a candidatos nas eleições de 2018, mas, para nossa alegria, o contexto e o tom da reação não poderia ser mais diferente.

Neste caso, a dificuldade da escolha é explicada pela qualidade dessas opções e de outras que também gostaria de ter tido o prazer de escutar. De uma forma completamente diferente, essas quatro mulheres apresentam as características necessárias para representar os interesses da população que venha as escolher.

Entenda, minha intenção está longe de querer ser panfletária, mas não existe outro veredito. Com as entrevistas em mãos, era possível escrever esse texto de mil formas diferentes. Escolho de propósito me colocar nesse processo como alguém que felizmente se vê representada e até mesmo esperançosa com o que pode sair disso tudo.

Ana Freire, Carmem Dolores, Myrella Santana e Suzineide Rodrigues são as personagens desta matéria sobre esperança nas urnas. Em tempos tão sombrios, pode até parecer loucura nutrir qualquer esperança, mas, afinal, o que temos além disso? Tenho escolhido buscar no olhar das minhas algum resquício de fé e fico feliz em dizer que, por aqui, isso teve de sobra.

MÚLTIPLAS HISTÓRIAS

Antes de tudo, é preciso dizer, essa não é uma história única. Reforço as diferenças nas trajetórias, nas características e nas visões de mundo porque os mitos e estereótipos continuam tentando nos aprisionar em apenas uma narrativa falsa e reducionista.

No caso de Ana Freire (Psol), ela logo se apresenta relembrando sua trajetória na infância. Viu os pais se separarem em situação de violência doméstica e foi criada pelos padrinhos, que eram patrões dos seus pais. Seguiu estudando em escola pública e, sendo uma ótima aluna, conseguiu uma bolsa para estudar numa faculdade no Recife e em seguida foi aprovada num concurso para a Polícia Civil.

Ana Freire

A perspectiva da militância é a escolha de Carmem Dolores (PT) como ponto de partida da sua história e do Coletivo Recife pela Igualdade, que compõe junto com outras mulheres. Professora e mestra em educação, descreve uma vida voltada para a defesa de uma educação pública de qualidade e dos educadores. A luta antirracista esteve sempre presente, seja junto a movimentos e coletivos ou na trajetória acadêmica, pautando e estudando narrativas.

Carmem Dolores

A mais jovem candidata, Myrella Santana (Psol), de 19 anos, lista um histórico robusto para alguém com tão pouca idade. Se envolveu como liderança na escola que estudou e no seu bairro durante o ensino médio. Depois, criou um projeto permanente de fomento à cultura e educação, o Sarau Cultural Gelateca Maria Betânia Carvalho, em Jardim São Paulo, onde vive.

Myrella Santana

Suzineide Rodrigues (PT) tem uma história política fundamentada no sindicalismo, traço corriqueiro a integrantes do partido que compõe. Representando a sua categoria, Suzi foi presidente do Sindicato dos Bancários de Pernambuco e se destacou enquanto liderança colocando em pauta discussões sobre gênero e raça dentro do segmento.

Suzi Rodrigues

PENSANDO POLÍTICA DE OUTRAS FORMAS

“Eu acredito que eu sai candidata por vários motivos e citando um deles é a necessidade de me representar e de me ver representada nesses espaços porque são espaços que todo mundo sabe né, que são brancos masculinos, héteros, cis-normativos e classe média alta”.

A fala de Myrella traz uma realidade. Historicamente, as cadeiras e os lugares de decisão no Brasil têm sido ocupados por um mesmo perfil de representante e o demarcador racial continua sendo determinante. 

Os números das últimas eleições municipais mostram que as pessoas brancas continuam sendo a maioria nas prefeituras e nas câmaras, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dos prefeitos eleitos, 29,11% se autodeclaram negros e 70,29% brancos. No cargo de vereador, o cenário é semelhante, 42,07% negros e 57,13% brancos.

Como esperar que toda a sociedade seja representada dessa forma? A população negra sendo a maioria (54%) e não estando presente proporcionalmente nesses lugares? A prova disso é que nos últimos dois anos, a gestão municipal do Recife, não destinou um real sequer do orçamento público para políticas de promoção da igualdade racial.

A pesquisa de mestrado da professora Carmem Dolores trouxe esses dados. “Não existe implementação de política pública sem recurso público”, disse. “A gente viu que não tinham propostas em defesa da educação pública, a gente não teve ações antirracistas estruturantes nesse governo, só são políticas de aparência”, completou.

É uma pauta antiga do movimento negro a necessidade de representatividade nas esferas públicas. O debate e a implementação de políticas que tragam o olhar a partir das nossas vivências e promova mudanças reais na vida do povo preto é um dos motivos, mas, também a importância da construção de uma representação positiva para as novas gerações aparece como outra razão.

Foi essa a resposta que Suzineide trouxe. “Precisa ter mulheres negras pra gente desmascarar esse preconceito e dizer ‘não tem igualdade racial, mas nós queremos construir essa igualdade de fato’. Então, uma mulher negra vai dizer ‘eu estou aqui’ e a menina negra lá do meu Ibura vai dizer ‘olha se Suzi tá aqui, um dia eu posso ir lá’”, disse.

AS PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

“Não se compara eu chegar na estação central carregando a minha caixa de som com dois amigos voluntários e param dois ônibus na frente com quarenta pessoas na frente fardadas com dez mil panfletos na mão. Essa questão estrutural da democracia no brasil é violenta, chega a ser violenta porque eu tenho que me desdobrar pra conseguir superar essas muralhas que vão surgindo nessa corrida”, Ana Freire aponta a desigualdade na corrida. 

A limitação dos recursos de campanha exemplificado por Ana é apenas uma das pedras no caminho até o dia 15 de novembro. A verdade é que a trajetória da campanha tem sido tudo, menos fácil. Situações de assédio nas ruas, racismo, falta de apoio e recursos limitados são apenas alguns dos obstáculos que mulheres negras têm enfrentado para prosseguir com as candidaturas.

“A gente tá na rua fazendo campanha, mas a gente tá sofrendo assédio, a gente tá sofrendo racismo, a gente tá ouvindo coisas absurdas e a gente tem que se segurar pra realmente dar uma respirada e continuar nesse processo porque às vezes a gente acha que realmente é impossível”, desabafa Myrella.

A dinâmica dentro dos próprios partidos contribui para dificultar ainda mais o processo. Fiz questão de pontuar a dificuldade que mulheres negras têm em viabilizar as candidaturas, mesmo nesses espaços de esquerda ou que assumem uma postura mais progressista, e questioná-las a respeito disso.

A resposta que tive foi unânime. No fim das contas, como uma instituição fundamentada numa sociedade machista e racista, as estruturas do partido seguem essa mesma lógica. Os obstáculos impostos se mostram de forma mais forte na falta de apoio financeiro, de suporte institucional e na reprodução de preconceitos.

Na hora de priorizar candidaturas para o distribuição do fundo, mulheres negras seguem recebendo menos, mesmo tendo o mesmo potencial que candidatos homens. É o que Suzi diz. “O investimento que o partido faz não condiz, não prioriza o debate nem das mulheres, nem das negras, nem da juventude. Na hora de escolher as candidatas e os candidatos prioritários, os candidatos prioritários na maioria são homens”, fala.

Até que ponto os partidos de esquerda estão dispostos a abrir mão do mesmo tipo de protagonismo? De que forma as pautas antirracistas estão sendo tocadas? Tem participação ativa de pessoas negras? Mulheres negras ocupam espaços importantes dentro dessa estrutura? Me pego questionando isso a partir das respostas e constatando a crueldade do fogo “amigo” direcionado a nós.

“É uma tendência da sociedade em colocar os corpos pretos como tipo ‘aqui tão aqui, tá tudo certo, já fizemos a nossa parte, então a gente é antirracista aqui candidata preta no panfleto’, mas o tempo de TV é menor, as estruturas pra campanha são menores”, diz Ana Freire.

Concordo com Myrella quando me fala “entre esquerda e direita, eu continuo sendo uma mulher preta”. E que, apesar disso, completa “sou uma mulher de esquerda e progressista porque eu também não sou imbecil e eu sei que esse lugar me cabe e apesar de ser branco, colonial e eugenista, ainda me cabe de alguma forma”.

COMPROMETIDAS COM A ESPERANÇA

O compromisso com as pautas negras talvez seja o principal elo que une as candidatas. Além dele, o olhar para os territórios periféricos, para as mulheres e para juventude são questões que se repetem nas plataformas, o que reafirma a necessidade desses projetos políticos.

O Coletivo Recife Pela Igualdade, o qual Carmem Dolores faz parte, desenvolveu uma proposta bastante robusta em relação às políticas de promoção da igualdade racial. A começar pela garantia de recursos dentro do orçamento público para políticas como a implementação da Lei 10639, de ensino de ensino de história e cultura afro-brasileiras, e para uma formação antirracista voltada para servidores municipais, por exemplo.

Em pauta ainda pelo Coletivo, a construção de um Estatuto da Igualdade Racial na Câmara dos Vereadores do Recife, a valorização de heróis negros a partir da nomeação de espaços públicos e o fomento a projetos que valorizem a cultura afro-brasileiria.

A candidata Suzi Rodrigues defende uma cidade inclusiva e enfatizou na conversa a criação de vagas nas creches para crianças de 0 a 3 anos como prioridade. Moradia digna para população em situação de risco, capacitação para juventude e mulheres negras nas comunidades, além da geração de emprego e renda são outras pautas levantadas nesta candidatura.

As prioridades de Ana Freire na candidatura são voltadas para mulheres, segurança pública e infância e juventude. Como ex policial militar e mestra em Direitos Humanos, a proposta de Ana em relação a segurança pública se torna central nas discussões. O que ela faz questão de ressaltar: segurança pública do ponto de vista das minorias sociais e uma segurança que não esteja limitada às forças policiais, mas que seja baseada na promoção de políticas públicas.

As vivências pessoais de Myrella Santana são o norte para as principais pauta que ela encabeça nesta campanha. O debate de gênero, raça e orientação sexual dentro de todos os âmbitos da sociedade. Mas, ela enfatiza principalmente o direito à  cidade numa perspectiva de entender a periferia como centro, como um lugar de potência, de produção e como a engrenagem principal da economia recifense.

VOTE EM NEGRA

Como Ana, Carmem, Myrella e Suzi, felizmente existem outras dezenas que demonstram o preparo para assumir esses papéis no Recife e em outras cidades do Brasil. Por isso, nessas eleições a dificuldade está em escolher qual delas diante de tantas candidatas que de fato nos representam e que bom! que elas estão aí. 

Poderia dar mais mil motivos sobre porque eu acredito ser importante votar em mulheres negras comprometidas com as lutas antirracistas. Prefiro finalizar com as vozes das próprias candidatas que me responderam: por que o Recife precisa de mulheres negras, assim como elas, na Câmara de Vereadores?

Suzi Rodrigues

“Nós mulheres negras precisamos ocupar um espaço na Câmara para poder traduzir pra sociedade do recife que nós podemos estar lá, fazer bem feito e fazer a diferença e realmente a Câmara poder ser o lugar do povo, como ela deve ser, o lugar onde todos devemos estar” – Suzi Rodrigues

Myrella Santana

“Entender o meu papel e a minha responsabilidade com as minhas ancestrais, com aquelas que vieram, que lutaram, que se dedicaram para que eu hoje pudesse estar disputando esse espaço e a minha responsabilidade para que outras mulheres pudessem também futuramente estar ocupando esses espaços, mas sem precisar por situações que eu to passando– Myrella Santana

Carmem Dolores

“É uma questão de democracia. É muito importante a nossa presença na Câmara dos vereadores porque ela vai garantir a representatividade de um segmento real da população da cidade do Recife. Eu acho que perpassa pelo direito da mulher negra, de falarmos pela nossa própria voz e de nos sentirmos representadas” – Carmem Dolores

Ana Freire

“Eu acho que eu chegando é uma força pra que mulheres entendam que é possível chegar. Eu chegando é uma força pra que meninas se preparem pra chegar. Eu chegando é uma forma de honrar toda uma ancestralidade que foi impedida de chegar e eu chegando também é uma homenagem para as que foram interrompidas, que nós seguimos firmes nessas lutas por uma sociedade com menos dores” – Ana Freire

Emanuely Lima
Jovem negra, filha do sertão do Pajeú e adotada pelo Recife. Recém-formada em jornalismo, costuma dizer que assobia e chupa cana ao mesmo tempo, experimenta de um tudo e se interessa por um mundo de assuntos e áreas, embora esteja sempre falando sobre negritude, feminismo e direitos humanos, tudo que perpassa a existência, dela e dos seus.

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