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Soul é meio… racista?

O novo filme da Pixar reproduz as velhas práticas racistas da Disney. Soul foi lançado em dezembro, como filme de Natal, no serviço de streaming Disney+, causando barulho entre a comunidade negra e entre os amantes de animação no geral. 

Barulho positivo, devo dizer.

Joe Garden. Imagem: Pixar

No filme, conhecemos a história de Joe Garden (Jamie Foxx), um professor talentoso de piano de ensino fundamental que sonha em ser pianista de jazz no clube The Blue Note. Dividido entre o conforto financeiro de seu emprego fixo e seu sonho de viver da arte, Joe finalmente tem a chance de provar o seu talento para a Jazzista e líder da banda Dorothea Williams (Angela Bassett). Entretanto, quando tudo parecia ir bem ele sofre um acidente e acaba morrendo, se transformando em uma alma. Agora, Joe vai fazer de tudo para recuperar seu corpo a tempo de realizar seu grande sonho.

A vida vale a pena ser vivida pelo menos para alguns personagens.

Antes de fazer minhas considerações sobre o roteiro do filme — que no final das contas é o que realmente importa —, devo negritar, aqui, que a animação em si é magnífica. A equipe do diretor de Divertidamente (Pete Docter, 2015) usou muito do universo da cabeça da Hayley, entretanto, é um erro falar de repetição. Alguns detalhes me chamaram atenção, como a forma embaçada com contornos borrados das representações das almas. A falta das cores primárias e saturadas em Divertidamente dão lugar a um azul arroxeado, lavado e sem grandes contrastes no Pré-vida.

Joe e 22. Imagem: Pixar

A vida na Terra, por outro lado, possui um tom dourado e quente, com uma paleta que varia entre o marrom alaranjado ao amarelo. O que traz o cuidado e a sensibilidade dos criadores de não romantizar ou glamourizar um pré-pós-vida. A mensagem aqui é que a vida vale a pena ser vivida — pelo menos para alguns personagens. As técnicas de iluminação hiper realistas e “fake cameras” que vimos em Toy Story 3 estão de volta, dessa vez para valorizar a pele do nosso protagonista.

Toy Story 3 e Soul. Imagem: Pixar

A técnica de “arame 3D” dos Conselheiros que acabam simulando uma animação 2D em um ambiente 3D trazem certo refinamento ao filme. Quem dá vida ao Jazz empolgante e de tirar o fôlego de Joe Garden é o Jon Batiste, diretor do Museu Nacional do Jazz no Harlem.

10 minutos de tela

Não é novidade para ninguém que a Disney simplesmente não consegue manter minorias na tela por muito tempo. É o caso de Kuzco, em A Nova Onda do Imperador (2000) — transformado em Lhama; Kenai, em Irmão Urso (2003) — transformado em urso; Tiana a Princesa e o Sapo (2009) — transformada em sapo; Miguel, em Coco (2017) — transformado em esqueleto; e nosso último exemplo, Joe Garden, em Soul (2020) — transformado em uma alma e em um gato.

Exemplos de personagens da Disney que mudam de aparência. Imagem: Disney

Sim, Joe Garden tem exatos 10 minutos de tela como um homem negro. E, ao contrário de outros personagens — cujas transformações possuem função na história —, a troca de corpo de Joe serve apenas como empecilho para seu objetivo e também para que ele conheça a personagem secundária, 22 (Tina Fey), e que não ajudará em nada no desenvolvimento do personagem nem de suas habilidades. E quando finalmente Joe tem uma oportunidade de reaver seu corpo, o roteiro — à la Corra! (2017) — trata de colocar 22 (descrita pelo filme como uma mulher branca de meia idade) no comando. Tornando Joe refém, tendo que negociar suas ações, diálogos e desejos durante o resto do filme.

O que a Pixar/Disney sinaliza com essas escolhas é que a audiência não conseguirá se relacionar com um personagem que seja negro/latino/indígena durante toda a trama. Além, é claro, de desumanizar esses personagens.

Joe. Imagem: Pixar

“Música é tudo o que eu penso. Do momento em que eu acordo de manhã ao momento em que eu vou dormir.”

É o que Joe fala para a mãe ao confrontá-la por não aceitar seu sonho de tocar com Dorothea Williams. E é inegável o talento que fala por si só do personagem. E apesar de ser retratado como um jazzista amargurado e falido, Joe Garden faz a audiência torcer para que ele alcance posições maiores por causa de sua paixão por música. Nos fazendo pensar ‘alguém com tanto talento deveria ser famoso!’.

Mas parece que o filme escolhe outro destino para ele. E depois de passar por todas as dificuldades, recuperar seu corpo de volta e tocar divinamente no show de Dorothea, numa sequência de tirar o fôlego… Joe se encontra insatisfeito. E, para nossa surpresa, a realização pessoal do protagonista, que usualmente é o ponto clímax do filme, se torna apenas um intermediário para fazer o que realmente importa: Ajudar a personagem secundária branca.

Quanto custa a vida de um homem negro?

Depois de perceber que seu sonho não era o que ele esperava, Joe volta para casa e escolhe — literalmente — morrer para salvar a vida de 22. O personagem retorna para o pré-vida para ajudá-la a nascer num corpo. Depois que ele consegue resolver os traumas pessoais de 22, Joe se vê na esteira que o levaria direto para morte, ou seja, o personagem escolhe desistir de seus dons, desejos e da sua vida para salvar a alma-mulher-branca. 

E no final das contas, fazer um personagem negro se sacrificar por uma personagem branca é extremamente racista! 

Joe acaba não morrendo por bondade dos Conselheiros e retorna à Terra. Porém, para nós, audiência, o futuro de Joe é incerto: não sabemos se ele retorna para ser professor, já que, segundo o filme, ele é uma alma que inspira outras almas. Nem sabemos se ele volta a perseguir seu sonho de tocar piano. O filme também introduz um possível relacionamento amoroso que Joe poderia ter com uma mulher chamada Lisa — que ele não desenvolve por não ter ‘tempo’. 
A mensagem final é que, agora, Joe pode aproveitar a vida em seus “detalhes que realmente importam”, mas que na verdade não ficam muito claros. O personagem termina como começou: sem redenção, sem romance e com uma vida medíocre. 22 aparentemente merecia um final melhor do que nosso protagonista, já que ela não só encontrou seu propósito como também conseguiu se desenvolver a ponto de poder viver na Terra e ter seu final feliz. Joe Garden se torna o coadjuvante da própria história.

Para quem é essa mensagem?

Para esse trabalho, a Pixar chamou o co-diretor negro Kemp Powers — o primeiro nesta posição na história do estúdio. Apesar disso, vemos um filme que parece ter saído da cabeça de Peter Docter e ambientado numa roupagem de Jazz com dois finais: o do show de Joe com Dorothea e o final propriamente dito. Mesmo com uma equipe diversificada de animadores, produtores e do próprio diretor, o filme se propõe a fazer piadinhas com a cor do protagonista sem nunca de fato tocar no assunto raça. Coloca as duas mulheres negras principais: a mãe e Dorothea como negras raivosas e com pouca sensibilidade.

Joe e Dorothea. Imagem: Pixar

E como Tiana, que é a única princesa conhecida — cuja única aspiração é ‘trabalhar duro e abrir um restaurante’ —, Joe Garden é morto pelo estúdio antes de conseguir ser um pianista de sucesso. E quando consegue iniciar sua jornada como tal o filme chama sua paixão de obsessão e pede que ele reveja suas prioridades na vida. 

Dizer que pessoas pretas não podem sonhar, além de coisas mundanas em um estúdio cheio de histórias mágicas e extraordinárias, pode afetar significativamente a autoestima das crianças negras. O que há de novo na mídia em dizer que a vida, talento, e sonhos de um homem preto são descartáveis? Se depois de 23 filmes lançados e 10 minutos de tela o primeiro protagonista negro não pode ter um final decente. Soul é mais uma prova que a tão sonhada representatividade está sendo apropriada e se tornando uma arma. Uma arma pronta para ser usada contra nós e é capaz de aplaudirmos sem perceber.

Mallu Oliveira
Estudante de comunicação, atualmente produtora do Programa LGBT no Ar, afrofuturista apaixonada por tecnologia e inovação. Escrevo sobre o que vivo e sobre o que eu gostaria de mudar.

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