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Poeta, artista, negro, pernambucano esse é Solano Trindade

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Uma mistura tipicamente brasileira, neto de negro com branca pelo lado paterno; e de negro com indigena pelo lado materno, o poeta pernambucano Francisco Solano Trindade foi o filho do sapateiro Manoel Abílio e da dona de casa Emereciana Quituteira. Nasceu em 24 de julho de 1908, no bairro de São José, no Recife, e concluiu o equivalente ao ensino médio no Liceu de Artes e Ofícios em Recife.

Filho de peixe…

Influenciado diretamente pelo pai que, desde cedo, o levava nos dias de folga para dançar Pastoril e Bumba-meu-boi, Solano foi criado em meio a cultura pernambucana. Graças a intervenção da família, o poeta acabou fascinado pelo carnaval, o maracatu e o frevo. Com mãe analfabeta, lia para ela novelas, literatura de cordel e poesia romântica. Surgia aí o amor pela escrita.

Em meados da década de 1920, Solano começou a compor seus primeiros poemas. No início da década seguinte, o poeta foi um dos responsáveis por organizar e idealizar o I Congresso Afro-Brasileiro, realizado em 1934, em Recife, sob liderança de Gilberto Freyre. Em 1937, Solano também participou do segundo congresso Afro-Brasileiro, que aconteceu em Salvador.

Canta América

Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…

Vou onde a arte me levar

Mostrando a fibra e a vontade de trabalhar que o consagrou no começo de 1940, o poeta foi para Belo Horizonte, em seguida se mudou para o Rio Grande do Sul, onde fundou um grupo de arte popular em Pelotas. Pouco tempo depois, voltou para o Recife e logo em seguida foi para o Rio de Janeiro, onde fixou residência a partir de 1942. Na então Capital Federal, Solano publicou seu livro Poemas de uma Vida Simples, em 1944.

Por conta do poema Tem Gente com Fome, que faz parte do seu livro, ele foi preso, perseguido e seu livro foi apreendido, embora houvesse, de fato, muita gente passando fome no Brasil, naquela época. Em 1945, ao lado de Abdias Nascimento, eles contruíram o Comitê Democrático Afrobrasileiro, que se estabeleceu como o braço político do Teatro Experimental do Negro, liderado por Abdias.

Mesmo estando a frente do TEN, Solano fundou, em 1950, ao lado da sua esposa Margarida Trindade e do intelectual Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro, cuja a sede era localizada na UNE e, entre os atores do elenco principal, estavam operários, domésticas e estudantes e que performaram temáticas e inspirações em algumas das principais manifestações culturais brasileiras, como o bumba-meu-boi, os caboclinhos, coco e capoeira.

Graças ao seu esforço e paixão pelo trabalho, apenas cinco anos mais tarde, o poeta criou o grupo de dança Brasiliana, que realizou inúmeras apresentações não só no Brasil, mas também no exterior. No final da década de 1950, Solano levou o Teatro Popular Brasileiro para São Paulo, fixando a companhia no estado, para aproveitar a vida cultural da capital paulista.

Eu gosto de ler gostando

Eu gosto de ler gostando,
gozando a poesia,
como se ela fosse
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
gostando de ser beijada.
Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
como se ele fosse
boca de mulher pura
simples boa libertada
boca de mulher que pensa…
dessas que a gente gosta
gostando de ser gostada.

Um artista completo

Conhecido como o criador da poesia “assumidamente negra” para muitos críticos, Solando lançou os livros Poemas de Uma Viagem Simples, em 1944; Seis tempos de Poesia, em 1958; e Cantares aos meu Povo, em 1961. Como ator, participou dos filmes Agulha no Palheiro, em 1955; Mistérios da Ilha de Vênus, em 1960; e O Santo Milagroso, em 1966. Além disso, Solano ainda trabalhou como artista plástico, uma de suas obras em quadro a óleo, hoje, faz parte do acervo do Museu Afro Brasileiro.

Débora Eloyhttp://www.obirin.com.br
Por definição: companheira, caridosa, desenrolada, amorosa, avexada, doce, paciente, disposta. Por autoria: estabanada, carente e abestalhada

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