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O caso Neymar e como o racismo vem sendo tratado no esporte

Neymar sofre racismo em partida válida pelo Campeonato Francês, enquanto isso NBA e Fórmula 1 tem suas competições marcadas pela luta antirracista

Não é a primeira vez que o astro brasileiro sofre racismo num jogo de futebol. Em 2011, numa partida pela seleção brasileira, em Londres, Neymar teve uma banana arremessada em sua direção. O jogo era contra a Escócia.  Em 2016, Neymar foi hostilizado pela torcida do Espanyol de Barcelona, em jogo válido pelo campeonato Espanhol. E no último domingo (13) as ofensas partiram de um companheiro de profissão. 

Vamos ao ocorrido. Em partida válida pelo Campeonato Francês, o time de Neymar, o PSG, enfrentava seu maior rival, o Olympique de Marseille, num clássico de enorme rivalidade. O PSG, clube com maior poder financeiro (fonte de renda duvidosa vindo do Catar) perdia o jogo por 1×0 até que uma confusão toma conta da partida e Neymar resolve ajudar seu companheiro de equipe, o argentino Paredes, então o clima esquenta.

O astro Brasileiro e o zagueiro espanhol Álvaro González se desentendem e  começam a discutir. Neymar então afirma que sofreu ofensas de cunho racistas. Ele revida com um tapa no pescoço do espanhol. Neymar é expulso e nenhum dos árbitros da partida diz ter ouvido ou visto as ofensas contra o jogador.

Álvaro e Neymar Jr se encaram
Álvaro e Neymar Jr durante a partida. Foto: Gonzalo Fuentes/Reuters

Repercussão nas redes sociais 

Neymar é um astro global que soma milhões de seguidores em suas redes sociais e, por consequência, tudo que envolve o jogador repercute sem precedentes. Então, o fato virou um dos temas mais comentados nas mídias e a gente podia encontrar de tudo. Desde pessoas que defenderam o astro, àquelas que achassem a atitude dele exagerada e até algumas que resgataram uma frase do jogador, ainda com 18 anos, que afirmava não ser negro

Um dia após o ocorrido, o jogador utilizou o Instagram para externar seu posicionamento e, pela primeira vez, afirmar sua negritude.

Até então, Neymar pouco tinha feito ou falado sobre negritude e questões raciais. Ele compartilha hashtags contra o racismo, mas tudo muito superficial como a maioria das celebridades e jogadores de futebol fazem. Será que agora ele despertou para existência do racismo?

Influência de Hamilton e jogadores da NBA?

O mesmo domingo que Neymar foi vítima de racismo, foi marcado por um dos protestos mais significativos e impactantes da história do esporte mundial. O piloto da Fórmula 1, Lewis Hamilton, maior piloto da história da categoria, subiu ao pódio do GP da Toscana vestindo uma camisa com a frase ‘arrest the cops who killed Breonna Taylor’, ou ‘prendam os policiais que mataram Breonna Taylor’.

Lewis Hamilton
Lewis Hamilton no pódio do GP da Toscana. Foto: Reprodução / Grande Prêmio

Ao lado de George Floyd, o assassinato de Breonna Taylor foi o outro grande estopim das manifestações deste ano. Breonna, mulher preta de 26 anos, era paramédica quando, em março, a polícia invadiu sua casa. Os policiais não se anunciaram como tal, o que fez o namorado de Taylor, Kenneth Walker, que dormia ao lado dela, acreditar que se tratava de invasores. Pegou, então, uma arma — registrada e legal —, e fez com que os policiais atirassem 20 vezes na direção dele. Não havia acusação alguma contra eles. 

Hamilton então cobriu todos os patrocínios que tinha sobre seu macacão de corrida e estampou seu protesto na tela de todos que assistiam uma das corridas mais importantes do ano. Algo nunca visto antes na categoria e que se assemelha a poucos protestos raciais de esportistas. 

Neymar e Hamilton são muito próximos e o piloto pode ter influenciado sim a recém mudança de comportamento e posicionamento do jogador brasileiro. Além disso, o movimento encabeçado por astros da NBA na luta antirracista estadunidense tem gerado muito engajamento entre atletas. 

Os protestos foram liderados pelos jogadores do Bucks, cuja sede fica no estado de Winsconsin, palco de incidente que gerou revolta nos Estados Unidos. No dia 23 de agosto, Jacob Blake, um homem negro de 29 anos, levou sete tiros pelas costas depois de ser abordado por uma equipe policial em Kenosha. Os protestos mobilizaram todas as franquias e atletas da NBA e resultaram numa greve dos atletas que durou três dias.

O que fizeram as autoridades?

Claro que esses protestos e ações de combate ao racismo não passariam despercebidas. No caso da NBA, a liga deu total apoio aos jogadores e prometeu intensificar as ações de combate ao racismo naquilo que for possível a ela. A liga é uma das mais progressivas do esporte mundial e tem como objetivos institucionais prezar pela igualdade de direitos.

No caso de Hamilton estamos diante de um esporte extremamente elitista e que pouco ou nada faz para mudar a realidade das pessoas. Vemos apenas discursos generalistas e campanhas com pouca profundidade. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) ainda pensou em abrir investigação contra o piloto inglês, mas desistiu após repercussão negativa da ideia.

Neymar foi suspenso pela agressão física ao espanhol Álvaro González e sobre as acusações do brasileiro a liga francesa afirmou que: “Sobre o caso de Álvaro González, pela natureza dos fatos, a Comissão (Disciplinar) decidiu colocar o caso sob investigação”. Vamos aguardar os desdobramentos. Mas, sem muita esperança, vista a declaração do presidente da federação francesa, em participação no programa BFM Business, da emissora BFM TV, “O racismo no futebol não existe ou existe pouco”. É isso aí mesmo que você leu.

Se liga, Neymar

Um astro com a dimensão midiática do Neymar tem muito a acrescentar na luta antirracista. Com posicionamento e declarações, mas acima de tudo, vestindo a camisa da luta contra o racismo. Que isso não fique apenas nesse episódio momentâneo e que essa revolta não apareça apenas quando for ele a vítima, mas que ela se converta em engajamento na causa.

Ivson Henrique
Radialista de formação, tem seu legado baseado em produções relacionadas a questões étnico-raciais. Amante de esportes e produções audiovisuais que tratam sobre filosofia, existencialismo e tempo.

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