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“Não só alegrias, mas o turbilhão de sentimentos da maternidade”

Demorei cerca de um mês para ler “as alegrias da maternidade” escrito por Buchi Emecheta. Bem longe da meta que coloquei no começo do ano de, pelo três livros ao mês. A leitura não demorou porque o livro é ruim, muito pelo contrário: ele é extraordinário. O conteúdo é tão denso e necessário que é impossível não refletir sobre algumas questões tradicionalistas que permanecem, desde o início do século XX, onde o livro acontece, até hoje. É daquelas histórias de ler capítulo por capítulo dando uma pausa de um dia ou dois. Admiro quem conseguiu ler tudo de uma vez. 

Quando terminei fiquei com a ideia na cabeça de que o livro de Emecheta atinge as múltiplas mulheres que o leem de diferentes maneiras. Mas aquelas que pensam em ser mães, poxa, pode ser que ele seja um tapa na cara sobre a reflexão do que é a maternidade.

A narrativa se passa na Nigéria, entre Ibuza – terra natal da autora – e Lagos. Começa com a história do romance arrebatador entre Nwokocha Agbadi e sua amante Ona, pais da personagem principal dessa história: Ngu Ego. O nascimento de sua única filha ceifou a vida de Ona e Agbadi criou Ego com a ajuda de suas outras esposas e filhas mais velhas. Era de se esperar que Ngu Ego fosse a favorita de Agbadi, dado o seu amor profundo por Ona.

Em Ibuza a tradição da aldeia diz que todas as filhas devem se casar, e o marido desta, deve pagar um belo dote ao pai. Agbadi, muito apegado à sua única filha com Ona, relutou bastante ao casamento de Ngu. Mas por fim cedeu e casou a filha com um rapaz da aldeia vizinha. Vejamos só o contexto da história, que se passa em uma sociedade do início do século XX e que é extremamente patriarcal: filhos são valorizados, herdam tudo dos pais e tem por obrigação cuidar destes na velhice. Filhas são feitas para se casarem, saírem da família, formarem as suas e procriar. Procriar homens, pois estes seriam valorizados. Ter meninas não era visto com bons olhos; era tomado como uma espécie de maldição da “chi”: entidade que rege a vida de seu protegido dependendo de como e com que frequência este lhe dá oferendas. 

Pois bem, Ngu Ego casou-se. E depois de um tempo não conseguiu engravidar. Seu marido arrumou outra esposa que lhe deu o que ele queria: herdeiros, filhos. Ela, em desgraça voltou à aldeia do pai, sendo prometida a um outro casamento, este, mais longe da terra em que foi criada. Ela teria que se mudar para Lagos, cidade em expansão da Nigéria. Em um contexto urbano completamente desconhecido pela mesma. Seu novo marido, trabalhava como lavadeiro em uma casa de ingleses, colonizadores brancos. A mudança foi bem abrupta: do contexto de aldeia em que Ngu Ego vivia ela passou a viver em um lugar urbano, selvagem e assustador a sua maneira, onde o dinheiro regia tudo. Somente ela e um desconhecido, que agora era seu marido.

A partir daí, com seu novo marido, Ngu Ego conhece a maternidade e as “alegrias” que ela traz. A própria autora, no final do livro coloca a palavra entre aspas, e no caminhar da leitura é que entendemos o porquê. O primeiro filho de Ngu Ego, logo nos primeiros meses de nascido faleceu. Em desespero, ela tentou se suicidar. Não ter sido capaz de manter a vida que lhe foi dada, para ela, foi uma desgraça. Preferia a morte. Salva, e ainda jovem, teve outros filhos: nove no total. Sete vivos, o primogênito falecido e um aborto. Dos sete filhos vivos três são homens; e Ngu Ego pariu dois pares de gêmeas.  

A cada filho e filha uma revelação sobre a maternidade. Tanto para Ngu Ego, quanto para o leitor. Da solidão de criar os filhos sozinha, apesar de ter um marido, na qual a concepção de paternidade era apenas procriar e buscar dinheiro para o sustento. Da profunda tristeza e depressão sobre a perda de um filho, ainda bebê, e também de um aborto em gestação tão avançada. Do sentimento de insuficiência sobre a criação dos filhos. Da pobreza, que para Ngu Ego, apesar de sustentar os filhos para não morrerem de fome, tinha a consciência de que eles não tinham a nutrição suficiente para crescerem completamente saudáveis. Do saudosismo da riqueza que vinha da terra em Ibuza. Do medo de cair em desgraça se voltasse para casa e abandonasse o marido. Do orgulho de ter parido homens, mas também a tristeza de ter parido dois pares de gêmeas. 

[ALERTA SPOILER] Uma das cenas que mais me entristeceu, entre tantas neste livro, foi quando, já com seus quarenta e tantos anos, Ngu Ego engravidou pela última vez e teve um aborto. Sua situação financeira era ruim e ela já tinha sete bocas para alimentar e pagar escola. Quando abortou e ainda fraca da força que tinha posto, foi olhar o sexo do bebê, e se sentiu aliviada ao ver que era uma menina. Ainda bem que não teria mais um gasto e ainda mais com uma menina. Assim que li isso, uma angústia tomou meu peito e também o da personagem principal, que pediu perdão por seu pensamento tão sombrio. Afinal, não tinha ela nascido mulher? Eu, não nasci mulher? 

Depois de um mês terminei “As alegrias da maternidade” quase sem fôlego. Me emocionei em diversos pontos da história por ter o desejo de ser mãe e de me colocar no lugar de Ngu Ego em algumas situações. Mesmo sabendo que a história se passa a partir do comecinho do século XX, sabemos que o pensamento dessa época, em diversas questões, continua o mesmo. Ainda estupefata pela narrativa, fui ler a história da autora, Buchi Emecheta e pude perceber o tanto dela que foi colocado em “As alegrias das maternidade”. Das alegrias mesmo e das ironias que o título traz. 

“[…] Nunca fizera tantos amigos, de tão ocupada que vivera acumulando as alegrias de ser mãe”. – As alegrias da maternidade, Buchi Emecheta.

Lucyanna Melo
Curiosa, faladeira, boa ouvinte e estudante de jornalismo. com bastante caraminholas na cabeça que acabam virando texto ou foto. as vezes eu leio uns livros também, porque o mundo real é meio chato.

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