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Não sei se ser mãe me cabe mais

Sempre quis ser mãe. Hoje, já não sei se quero. Esse desejo sempre oscilou, mas em termos de quantidade de filhos. Na minha cabeça, a maternidade sempre foi certa. Todos que vivem comigo falam que inspiro cuidado e um espírito de mãe: sempre preocupada, cuidando dos outros, carinhosa e uma capacidade de escuta impressionante. E sempre tomei essas características para mim da maneira mais positiva possível: são minhas qualidades. E sempre, desde que me entendo por gente, quis converter esse “instinto materno” em realidade. Bem, o sempre mudou, já não faz tanto sentido.

Quando pequena, amava brincar de casinha com minhas amigas e bonecas. O papel de mãe era sempre meu. Com os bichinhos de estimação que tive quando criança, a relação nunca era de responsabilidade entre irmãos, mas de mãe e filhos. As mães de minhas amigas confiavam sempre em mim, e só as deixavam ir para algum lugar se eu também fosse: era uma figura de responsabilidade, cabeça no lugar. Observava minha mãe cuidar de mim e do meu irmão e pensava: quero ser assim e ainda melhor. Quero ter cinco filhos. Mas cinco é um grande número, acho que três tá bom. Depois batia a realidade e, não, só quero um. Mas uma dupla é o número perfeito.

Hoje não quero. Nem cinco, nem três, nem um, nem a dupla perfeita. Não quero colocar uma criança no mundo.

Imagem: Colagem de Thais Silva

A primeira semana de junho de 2020 me fez ter essa nova certeza. Foi a semana em que vi a empregada doméstica Mirtes perder o seu único filho, Miguel, de cinco anos. Era a segunda edição do jornal local e eu estava no sofá da sala de casa com minha mãe. Acompanhava o noticiário enquanto almoçava, mas pousei o prato quando Mirtes, ao lado de sua mãe, começou a falar sobre a morte de seu pequeno. Em momentos de força, entre lágrimas e uma voz cheia de dor, Mirtes narrou quando encontrou o pequeno corpo de seu filho estirado de bruços. Tinha caído do nono andar das Torres Gêmeas do Recife, trinta e cinco metros de altura. Ela conta para a equipe de reportagem que ele ainda respirava, e ela, implorava para que ele não a abandonasse. Nos vídeos divulgados das câmeras de segurança do prédio, podemos ver Mirtes levantar as mãos para o céu, em apelo: pedia para Maria e seu filho, Jesus, trocasse a vida dela, pela do filho que aos poucos desfalecia. Miguel foi socorrido, mas não resistiu à queda. Faleceu no hospital. 

Enquanto Mirtes falava, meu maxilar doía. Sabe quando a gente tenta prender o choro? O olhos ardem, o maxilar se contrai, a gente engole em seco. Minha mãe, que assistia ao telejornal comigo se levantou, e pude escutar o seu soluço e choro na cozinha, para onde ela tinha ido expressar sua dor pela vida de Miguel e pelo sofrimento de Mirtes. E então eu mesma chorei. As lágrimas se libertaram e desceram pelo meu rosto. Chorei por Mirtes, pela mãe dela. Chorei por Miguel, apenas cinco anos de idade, morto pela irresponsabilidade. Morto pela falta de paciência com o filho da empregada. Morto pela Casa Grande. Morto pela branquitude. Chorei pela injustiça. Por que ele, tão pequeno, estava pagando com sua vida o preço de um sistema racista?

Um mal-estar tomou conta do meu peito por saber que se toda essa situação fosse ao contrário, se a irresponsabilidade viesse de Mirtes para com os filhos dos patrões, ela estaria sendo apedrejada, presa sem seus direitos, mais uma mulher preta no sistema penitenciário feminino. 

Ao longo da semana pensei em todas as mães pretas que choravam com Mirtes a perda de seus filhos pretos. Filhos pretos de cada canto desse país, de todas as idades e gêneros. Pensei nas mulheres pretas que sonham em ser mães, mas que sabem sobre a incerteza da vida de seus filhos.  Pensei na minha vontade de ser mãe e de como não aguentaria viver com essa incerteza. Comecei a imaginar o tamanho da dor que deve ser, você dar o melhor de si na criação do seu pequeno e o sistema tirar ele de você, do nada. 

Um dia desses li no instagram @prapretoler sobre o genocídio da maternidade negra. Nunca havia pensado nesses termos, apesar do genocídio do povo preto, infelizmente, fazer parte da nossa realidade. Achei impressionante como alguns textos me aparecem em momentos oportunos. O parágrafo do textículo que me chamou mais atenção foi:

“O medo da maternidade é um sentimento real, palpável e se relaciona diretamente com os números/vivências do genocídio”.

Releia o trecho. Leia de novo. Tem noção do quão violento isso é? Quando penso em maternidade, deveria me questionar sobre se serei uma boa mãe; se terei condições financeiras, físicas e psicológicas de gerar uma criança; sobre cores de roupa, nomes e significados. Não deveria pensar se meu filho vai morrer antes de completar dezoito anos. Ou nem isso. 

Comecei a entender todo o cuidado que minha mãe tinha com meu irmão, quando ele era adolescente e saía sozinho ou com os amigos. “Tá levando a identidade?”, “Já sabe quando ver a polícia, né? Sem gracinha”, “Não esqueça a identidade, a polícia não quer saber se você mora logo ali”. Eram recados diários, quase uma reza, todas as vezes que meu irmão saía. E nesses dias me veio o estalo sobre essas rezas, tudo pareceu fazer sentido. Tristemente, fez sentido.

Lucyanna Melo
Curiosa, faladeira, boa ouvinte e estudante de jornalismo. com bastante caraminholas na cabeça que acabam virando texto ou foto. as vezes eu leio uns livros também, porque o mundo real é meio chato.

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