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Mulheres, Ciência e Poder

Saber é poder! Poder de dominar, transformar a natureza ao redor e remodelar aos seus próprios interesses. E esse fato é bastante óbvio já que o progresso do conhecimento sempre esteve atrelado às mãos de grupos específicos em maioria aos da classe dominante – homens, brancos e ricos. E hoje, no dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, vamos refletir um pouco sobre porque ainda é tão complicado o poder do conhecimento chegar em nossas mãos.

Mulheres cientistas são apenas 14%

Segundo o Ipea, as mulheres são cerca de 54% dos estudantes de doutorado no Brasil, o que representa um aumento impressionante de 10% nas últimas duas décadas. Entretanto, é interessante observar que nas áreas ciências da vida e da saúde, por exemplo, as mulheres são a maioria dos pesquisadores (mais de 60%), enquanto nas ciências da computação e matemática elas representam menos de 25%. Já as mulheres cientistas são apenas 14% da Academia Brasileira de Ciências. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Inep, o percentual de mulheres negras (pretas e pardas) doutoras professoras de programa de pós-graduação é inferior a 3%. E segundo uma pesquisa realizada pelo CNPq em 2015 apenas 7% das bolsas de produtividade são destinadas a mulheres negras.

Isso, claro, é resultado de um longo histórico de desigualdade de gênero e raça que perpassa nossa história enquanto nação. A abolição da escravatura em 1888 e a exclusão dos negros e das mulheres dos espaços de ensino superior é um fator contundente na busca por igualdade nesses espaços.

Não se trata somente de representatividade

Devo chamar atenção que não se trata somente de representatividade – essa palavra que tanto odeio. A ocupação dos espaços científicos por minorias políticas como negros e mulheres é uma questão de sobrevivência. Até porque a ciência permeia tudo o que diz respeito às nossas vidas. Desde as pesquisas científicas, nas estruturas sociais, na ciência da educação, nas concepções da tecnologia e nas epistemologias e filosofias da própria ciência. A racionalidade científica, ou seja, aquilo que foi checado, experimentado, deduzido e comprovado e entre outras palavras: aquilo que é verdade molda a nossa subjetividade.

Mas, o que é verdade?

A verdade é um processo histórico, social e principalmente econômico. A verdade é também compartilhada coletivamente e reafirmada pelas instituições e pela ciência. E ela pode variar de acordo com os interesses de quem está no topo do sistema. Devo lembrar dos estudos do século XIX acerca da frenologia e da craniologia, campos que analisavam características fenotípicas, como o tamanho do crânio, em pessoas brancas e negras e que foram usados como “provas” de hierarquias entre as raças. Absurdo não é? Mas, as verdades são adaptáveis e rapidamente normalizadas. Há exemplo disso, vemos hoje espetacularização da morte dos corpos negros nos jornais da hora do almoço ou na popularidade de redes sociais com algoritmos racistas e misóginos. Isso não é tão chocante, não é?
Portanto, não somente a ocupação dos espaços do saber científico se faz necessário como também sua completa reformulação. É preciso destruir essa ideia iluminista do homem como sujeito e objeto universal do conhecimento. Mas se faz necessário primeiro entender que o saber é feito de formas, enquanto o poder é feito de forças. E que refletir ambos, nos faz criar espaços de maior liberdade e autonomia.

Referências:

https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/artigos/artigos/177-mulheres-na-ciencia-no-brasil-ainda-invisiveis

http://www.uel.br/grupo-estudo/processoscivilizadores/portugues/sitesanais/anais9/artigos/workshop/art19.pdf

Mallu Oliveira
Estudante de comunicação, atualmente produtora do Programa LGBT no Ar, afrofuturista apaixonada por tecnologia e inovação. Escrevo sobre o que vivo e sobre o que eu gostaria de mudar.

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