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E a nossa história?

Já imaginou se os livros de história não existissem? Se as pinturas rupestres não estivessem nas cavernas para nos provar que o homem passou por ali? E se a escrita não tivesse sido inventada, como teríamos documentado tantos anos da existência humana? É mais ou menos assim que está documentada a escravidão no Brasil. Ou melhor, não está.

Talvez alguns pensem, de forma exagerada e errônea, que se não existem provas, a escravidão não existiu. De fato, no mundo atual, mesmo com inúmeras provas, constatações que antes eram tidas como verdadeiras, e que ainda são apesar da forma de pensar de alguns, são colocadas em cheque e levantam dúvidas daqueles com menos instrução, para não citar alguns mais radicais que, mesmo com a informação ao alcance, se negam a estudar sobre o assunto antes de opinar.

Saindo um pouco da escravidão para dar alguns exemplos contemporâneos, temas como o formato da terra, o racismo e o feminicídio estão levantando dúvidas das pessoas não só no Brasil, como no mundo inteiro. Sim, em pleno ano de 2020 há quem duvide que a terra seja redonda (e levemente achatada nos polos), há quem tente justificar o racismo com frases como “mas eu tenho até amigos pretos” e quem defenda assassinos e estupradores julgando a vítima pelo o que ela estava vestindo ou a que horas teria saído. E isso tudo com provas concretas e palpáveis.

Então, como provar que a escravidão no Brasil realmente existiu se não temos os documentos para provar? Antes de mais nada é preciso dar o contexto histórico do que aconteceu. De acordo com os livros de história, pouco depois de assumir o Ministério da Fazenda, em 1890, Rui Barbosa teria ordenado a queima dos documentos relativos à escravidão, argumentando que a república era “obrigada a destruir esses vestígios por honra da pátria e em homenagem aos deveres de fraternidade e solidariedade para com a grande massa de cidadãos que a abolição do elemento servil entram na comunhão brasileira”.

Sendo assim, as “provas” da escravidão no Brasil teriam sido queimadas por ordem do então ministro da Fazenda, mesmo sob olhares contrários, como foi o caso do deputado Francisco Coelho Duarte Badaró, que registrou seu descontentamento com a queima dos arquivos. “A nossa vida é nova, mas precisamos ter a nossa história escrita com provas verdadeiras. Pelo fato de mandar queimar grande número de documentos para a hitória do Brasil, a vergonha nunca desaparecerá, nunca se poderão apagar da nossa história os vestígios da escravidão”, declarou o deputado.

OUTRO LADO DA HISTÓRIA

Historiadores defensores do ministro Rui Barbosa acreditam que essa parte da história do nosso país tenha sido mal interpretada. De acordo com Américo Jacobina Lacombe, os documentos recolhidos e queimados por Rui eram livros e matrícula de controle aduaneiro e de recolhimento de tributos que serviram como comprovantes de natureza fiscal que poderiam ser utilizados pelos ex-senhores de escravos para pleitear uma indenização do governo pela perda da sua mão-de-obra-escrava.

Ainda de acordo com outra vertente de historiadores, o responsável pela queima dos demais documentos brasileiros referentes à escravidão foi o sucessor de Rui Barbosa à frente do Ministério da Fazenda, Tristão de Alencar Araripe.

A DÚVIDA QUE FICA

Independetemente de quem tenha mandado destruir os documentos relativos à escravidão no Brasil, como será possível provar aos negacionistas contemporâneos que a escravidão no país realmente existiu? Ao meu ver, de forma bem simples. No racismo. No pai de família, preto e periférico, que é alvejado dentro de um carro com mais de 80 tiros sem nenhum tipo de aviso. Do homem negro que é deixado para apodrecer na cadeia apenas por ter roubado um frasco de desinfetante. Da mulher preta jovem que é vista como objeto sexual pelo homem branco e, depois de velha, apenas como propriedade para limpar a casa da esposa (também branca) do homem branco.

Mas você pode argumentar coisas do tipo: ah, mas é despreparo da polícia. Ou: cometeu crime, tem que pagar. Ou: ah, mas você está exagerando, só porque eu contrato uma mulher negra ou porque casei com uma mulher branca não significa que eu seja racista.

E eu devolvo com algumas perguntas: a polícia entra fortemente armada, com o pensamento de “quanto mais matar mais pontos eu ganho” na zona nobre da cidade? Ou: aquele homem branco que você conhece que roubou milhões dos cofres públicos ou que estuprou diversas mulheres, foi preso? Ou até mesmo: quantas mães pretas solteiras vocês conhecem? E quantas mães brancas solteiras você conhece?

O racismo está tão entranhado nas nossas vidas que se torna difícil debater. Antes não havia, porque o que havia era escravidão. Depois virou tabu. E agora, com as militâncias ativas, está se tornando mimimi e causas sem fundo pelo simples fato de você, branco, não aceitar que está errado. Que pensa errado. Que faz errado. E foi ensinado a vida toda errado.

Débora Eloyhttp://www.obirin.com.br
Por definição: companheira, caridosa, desenrolada, amorosa, avexada, doce, paciente, disposta. Por autoria: estabanada, carente e abestalhada

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