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Cartas para os professores

Queridos professores, 

Fui sempre uma pessoa muito tímida e retraída. Quando era menor, lembro que chorei bastante pra ficar na escola pela primeira vez. Para vocês terem uma noção, minha mãe precisou ficar do outro lado da calçada a primeira semana inteira, para que eu não sentisse sua falta e para me acostumar com as crianças e com minha primeira professora. Ela era a Tia Jane. Obrigado Tia Jane, por me fazer sentir querido e seguro.

Depois de Tia Jane, eu lembro que mudei de escola. Fui para a sala da Tia Prazeres. Nossa, uma mulher enorme de alta, que chega a gente ficava olhando de baixo pra cima com pescoço bem esticado. A sala da Tia Prazeres era bem grande e lembro que com ela aprendi a tabuada. Mas não foi fácil viu, mais uma vez eu chorei na escola (nossa como fui uma criança chorona), dessa vez, por errar a tabuada de 3. Que desespero. Ela me acalmou, falou que eu era muito inteligente e me deu outra chance. Nunca mais errei outra tabuada. Obrigado Tia Prazeres, por me transmitir confiança. 

E num é que eu mudei de escola de novo, agora também mudei de cidade, saí da longínqua Jaboatão para, a não mais próxima, Paulista. Fui apresentado a Tia Alisanja (esse é o nome dela mesmo). Encontro com ela as vezes ainda por aqui pelo bairro. Ela fica espantada e sempre comenta o quanto cresci. Olho, ainda tímido, falo um oi e emendo com um sorriso. Incrível a memória dos professores para lembrar dos seus alunos. Obrigado Tia Alisanja, por me fazer sentir importante. 

Minha memória afetiva me levou agora para a antiga sexta série. Mais uma mudança de escola, adaptação com novas pessoas, fazer novos amigos. E algo diferente: agora seriam vários professores, um para cada matéria. Desse tempo eu lembro da professora Cleide, de português. Rígida, mas ao mesmo tempo amorosa, assim que ela começou a dar aula a turma não curtiu muito. Depois, nos apegamos demais a ela. Lembro de uma homenagem que fizemos para Cleide no dia das mães, com uma carta e um perfume de presente. Ela se emocionou. Obrigado Cleide, por me fazer sentir parte de mais uma família.

A gente vai evoluindo e crescendo e mudando nossas relações. Acho que no ensino médio estamos, relativamente, mais maduros e temos alguns professores mais como amigos. Eu tive um professor muito gente boa, Cleiton. Era um cara incrível, ensinava química. Era muito legal. Infelizmente Cleiton nos deixou. Foi assassinado por engano três anos após minha turma se formar. Até hoje lembramos dele com enorme saudade e carinho. Obrigado Cleiton, por ser uma amigo nota mil. 

Acho que o tempo nos reserva as pessoas nas horas certas. Eu estava fazendo um curso técnico lá no IFPE, Telecomunicações, quando conheci um professor que simplesmente mudou a minha vida. Pedro Paulo, ou melhor, Negão. Um negro alto, de porte físico, andava bem devagar, camisa social meio amassada, calça social e uma voz inconfundível. Esse homem foi a primeira pessoa que me fez enxergar como negro. Era um cara que não ensinava apenas aquilo que estava na ementa da disciplina. Ele ensinava, literalmente, sobre a vida. Não há quem tenha passado por ele e dito que saiu da sua aula igual. É impossível. Obrigadro Negão, por abrir meus olhos para minha negritude.

Acho que a Faculdade é, para muitos, o lugar mais alto que podemos alcançar. Eu cheguei nela, com a ajuda de todos e de muitos mais que não caberiam aqui. E na faculdade eu tive contato com tantos e tantos professores, todos muito mais que importantes e que posso representar nas figuras de duas mulheres incríveis: Ana Veloso e Patrícia Horta. As responsáveis diretas pela minha formação enquanto comunicador social com dedicação ao respeito aos direitos humanos. Com elas aprendi que a sociedade precisa de nós para se informar, para se divertir e para se ver representada. Obrigado Ana e Patrícia, por me fazerem comunicador. 

Cada professor que eu tive na vida me deixou uma memória afetiva, seja qual for. As que mais aquecem meu coração estão presentes aqui. A vocês professores, meu mais sincero obrigado e uma eterna gratidão por tudo. Eu não seria quem sou hoje sem ter passado por vocês. 

Att.

Aquele Ivson

Ivson Henrique
Radialista de formação, tem seu legado baseado em produções relacionadas a questões étnico-raciais. Amante de esportes e produções audiovisuais que tratam sobre filosofia, existencialismo e tempo.

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